TRADICIONALIS

Este Blog pretende ser um espaço onde se trocam impressões e ideias sobre o património cultural português e qual a melhor forma de o preservar. A música e os instrumentos musicais, em especial os cordofones, terão aqui um espaço privilegiado.

25 setembro 2005

MÚSICA POPULAR, MÚSICA TRADICIONAL

As referências à música popular e à música tradicional confundem-se por vezes. Se a música popular é aquela que o povo adopta num determinado momento, a música tradicional é algo muito mais importante, já que tem a ver com a música que, para além de adoptada pelo povo, não só não é esquecida como é transmitida oralmente de geração em geração transformando-a assim numa herança cultural e em património do povo. A designação tradição oral deste género musical tem, exactamente, a ver com a transmissão oral de uma música que, muitas vezes, não está escrita e cujo nome do autor se perdeu ao longo de gerações. Já no que diz respeito aos instrumentos musicais a designação popular ou tradicional não está delimitada por quaisquer diferenças.

7 Comments:

At 28 setembro, 2005 12:19, Anonymous Anónimo said...

Amigo Sérgio

Vamos lá a afinar esses conceitos. Não é que eu discorde das definições propostas mas a expressão "a música tradicional é algo de MUITO MAIS IMPORTANTE..." pode dar a ideia de que existe um preconceito favorável a esse tipo de música.

O que é que determina a IMPORTÂNCIA de uma coisa ou acontecimento ? Será uma música tradicional, conhecida apenas numa aldeia perdida da Beira Alta,
culturalmente mais importante do que o Yellow Submarine ? Ou o Yellow Submarine também é música tradicional, património do povo global em que nos tornámos ?

Pensa e depois me dirás

 
At 28 setembro, 2005 17:03, Blogger Sérgio Fonseca said...

Caro ???

Para mim, no que diz respeito ao património cultural português, sem dúvida que é muito mais importante uma música tradicional conhecida apenas numa aldeia da Beira Alta
que o Yellow Submarine, uma
das 204 músicas dos Beatles que foi gravada pelo menos por 15 artistas diferentes, que possui duas particularidades: uma é o facto de ter sido um dos dois sucessos dos Beatles a que Ringo Starr deu voz (o outro foi "With a Little Help from my Friends"), a outra particularidade é que foi uma das duas músicas que aparece em dois discos de originais dos Beatles "Revolver"(1966) e "Yellow Submarine" (1969) (a outra música foi "All you Need is Love").
O problema que aqui se põe é com a desertificação progressiva que tem sido uma constante nas nossas aldeias há um património que se está a perder ou, se calhar, já se perdeu. Provavelmente haverá quem
em Portugal esteja mais interessado em gravar mais uma versão do "Yellow Submarine" que uma canção tradicional da Beira Baixa.

Um abraço e manda sempre.
Mas deixa o nome, Ok?
Sérgio Fonseca

 
At 28 setembro, 2005 22:10, Anonymous Anónimo said...

Amigo Sérgio

Sou inexperiente nesta coisa dos blog e por isso não deixei o nome.

Mas vejo que já começas a afinar os conceitos. Quando escreveste
"a música tradicional é algo de muito mais importante..." querias dizer "a música tradicional é, PARA MIM, algo de muio mais importante..."

Assim está melhor. Não concordo contigo, mas também não tem que haver unanimismo.

Um abraço - João Pedro

 
At 29 setembro, 2005 09:27, Anonymous Zé Paulo said...

É interessante e curiosa a discussão e revela a "sensibilidade etnográfica" do nosso amigo Sérgio, que, ao que parece, se sobrepõe de algum modo à sua "sensibilidade musical geral" (chamemos-lhe assim...), o que não deixa de ser curioso, num músico. Mas é a força dos 4 anos de antropologia, somados à já vasta experiência etnomusicológica...

 
At 29 setembro, 2005 16:12, Anonymous Anónimo said...

Inteiramente de acordo com a análise do Zé Paulo.

Os antropólogos tendem geralmente a considerar importantíssimas as culturas e formas de organização social que caminham para o desaparecimento.

E, também, aquilo que é raro ou exclusivo. Por isso, como bom antropólogo que é, o nosso amigo Sérgio diz que "é muito mais importante uma música tradicional conhecida apenas numa aldeia da Beira Alta
que o Yellow Submarine, uma
das 204 músicas dos Beatles que foi gravada pelo menos por 15 artistas diferentes".

Será assim ? O conceito de importância só é válido dentro de uma determinada série de acontecimentos.

Quanto ao chamado "património", bom... na verdade tudo é "património", e nem seria possível a renovação cultural, a aquisição e novas formas, sem uma constante perda de fatias dos "patrimónios".

Uma das formas de "salvar" o património é abdicar do purismo estrito e procurar incorporá-lo em formas de expressão modernas (sejam urbanas ou não).

João Pedro

 
At 30 setembro, 2005 02:56, Blogger Sérgio Fonseca said...

A questão, para mim, não está só em tentar preservar aquilo que está a desaparecer mas também em defender aquilo que é nosso.
Pegando nos Beatles. Paul McCartney esteve uma vez na Penina, no final dos anos 60, e numa noite sentou-se ao piano no bar do hotel e começou a improvisar uma música a que chamou “Penina”. Essa música que, francamente, é muito fraca foi gravada pela banda Jotta Herre (banda do hotel), por Carlos Mendes, etc vendeu “à brava”. Porquê ?.... Se ao mesmo tempo fosse colocado à venda um tema inédito como por exemplo o “Bailinho da Madeira” qual acham que vendia mais ?
Em Portugal temos muito boa música e muitos bons músicos. Infelizmente nem a música tem o relevo que devia nem os músicos a projecção que merecem. Nuno Bettencourt, açoreano, guitarrista dos Extreme foi nos E.U.A. considerado no final dos anos 90 o guitarrista do ano, um dos melhores do mundo. Quando lhe perguntaram o que achava que seria a sua vida se tivesse ficado nos Açores respondeu: “Se calhar estava num monte a guardar vacas”.
Temos em Portugal, especialmente na música, o péssimo hábito de depreciar aquilo que temos e que fazemos e dar um valor, por vezes excessivo ao que vem de fora.
Como é do conhecimento geral nos anos 60 foi feita uma recolha da música tradicional por Michel Giacometti. Essa recolha gravada em fita de arrasto deu origem a uma colectânea de 6 LPs e o resto foi remetido para as caves de um museu. Muitos e muitos anos mais tarde houve alguém que teve a feliz ideia de digitalizar o que podia ser digitalizado dessa recolha, mas muita coisa se perdeu.
Amigo João, como tive ocasião de demonstrar no meu concerto do ano passado no MNE, existem muitas músicas inspiradas noutras e algumas são uma pura e simples cópia. Ainda ontem estava a ver um documentário sobre os Deep Purple e o guitarrista Ritchie Blackmore dizia que o riff de abertura do tema “Pictures of home” tinha sido inspirado numa música tradicional búlgara que tinha ouvido na rádio. Quem é que me diz que o Yellow Submarine não foi inspirado numa musica tradicional de uma aldeia nos confins de Inglaterra….

Quem havia de dizer que um pequeno texto de 10 linhas ia dar tanta discussão. Mas estou a gostar. Mandem mais e mandem sempre. Obrigado e um abraço.
Sérgio Fonseca

 
At 02 outubro, 2005 14:25, Anonymous Anónimo said...

Sérgio

Acho que há aqui várias coisas misturadas: a qualidade musical, o espírito nacional, a cultura de massas, etc.

Vamos tentar clarificar?

O sucesso não é necessariamente uma consequência da qualidade intrínseca da coisa, mas o resultado de muitos factores (como a sorte, a fama, o marketing, e por aí fora).
Deixa-me exemplificar com um caso que todos conhecemos: em 1964 o primeiro LP de Simon & Garfunkel incluía uma música intitulada Sound of Silence, tocada apenas com uma guitarra folk. O LP era bom mas foi relativamente ignorado.
No ano seguinte, no segundo LP do duo, lá se incluía outra vez o Sound of Silence, agora arranjado de outro modo, com bateria, um baixo, mais guitarras. Foi um sucesso estrondoso e, a par de outras músicas, como Homeward Bound ou Richard Cory, lançou Simon & Gafunkel para a fama (merecida, aqui para nós).

O que mudara de 1964 para 1965? Mudara o arranjo da música e, sobretudo, mudaram os tempos e os padrões de gosto. A qualidade intrínseca da coisa era a mesma.

Para o que se discute, não interessa muito a qualidade intrínseca de "Penina" ou do "Bailinho da Madeira". O que importa é que uma foi criada por um ídolo à escala planetária, como era Paul McCartney e é esse o caminho do sucesso, do conhecimento público e, eventualmente, da imortalidade.

Chama-se a isto difusão cultural.
(aquilo que adoptamos e recusamos obedece a mecanismos engraçados; lembra-me, depois, para te falar dos macacos de Kyushu).

O exemplo que dás de muitas músicas inspiradas noutras é esclarecedor. O facto de Ritchie Blackmore se ter inspirado numa música tradicional búlgara, tornou esse excerto conhecido. Se o Blackmore não lhe tem pegado, continuaria esquecido nos vales e montanhas da Transilvânia. Será, talvez, injusto, mas é assim.

E porquê? Muito simplesmente porque não temos possibilidade de conhecer tudo o que se produz e produziu no mundo, apenas o que, através de várias circunstâncias e acasos chega até nós e de uma forma que, em cada momento, seja aceitável e nos seja agradável.

O tempo, a sensibilidade e o gosto é que são determinantes.

Um último exemplo (antes de ir almoçar). Já pensaste qual teria sido a importância de Cristo no século I ? Era irrelevante. Mas dois séculos depois, a sua doutrina (que era intrínsecamente a mesma) gerara um movimento importantíssimo e era adoptada por uma multidão.

O mesmo pode dizer-se de uma infinidade de personagens e de obras. Marx foi muito menos importante na sua época do que depois de morto.

A questão do nacionalismo fica para segundas núpcias.

Um abraço

João Pedro

 

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